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Sentou-se no banco de madeira enfrente do piano e começou a calcar as teclas com a polpa dos dedos, enquanto pelo solfejo se esforçava por seguir as notas, sem errar um único acorde, naquela melodia amargurada e entediante. Gostava de compor uma história, mas sabia que não poderia ser a história da vida dela "não podemos ficar juntos", fora ele que lhe dissera naquela manhã antes de entrar no metro. E de facto não podiam… ela sabia que não era a mulher da vida dele e estava longe de algum dia o vir a ser. Imaginou-lhe o perfume forte, emaranhado à pele do pescoço, os olhos rasgados de avelã e os lábios de pêssego. Se ao menos pudesse dizer-lhe o que sentia. Suspirou. Cessaram-se as notas e a melodia findou, era sinal de trocar a partitura e começar de novo.
Lembras-te, quando naquelas nossas madrugadas em que o relógio de madeira imperante, pregado a três parafusos maciços contra a parede do vosso quarto, denunciava as quatro badaladas?
E nós, enlameados sobre a luz regulada a pouca intensidade sobre as mesinhas de cabeceira… circundando-nos num pequeno ladear de luminosidade que não era incomodativa, que me valia para conseguir detonar os teus salientados abdominais, trabalhados nas exaustivas horas de treino madrugador… agora completamente suados, das nossas anteriores horas loucas, em que nos entregámos ao amor.
“Esta, é a última vez… não podemos voltar a cair no erro de nos envolvermos novamente!” – dizia-te eu, sobre o perjúrio da calmaria de um dos sete pecados mortais, enroscada aos lençóis brancos e estaticamente desalinhados, que me envolviam até ao peito. E tu, continuavas a albergar-me sobre esse teu olhar atento e estranhamente protector, incidido no meu corpo semi-nu, perscrutavas a minha silhueta delgada com máximo de astúcia e rigor… como se estivesses a apontar cada pormenor: as curvas e as contra curvas das minhas ancas e da minha cintura… a tatuagem que discretamente tinha desenhada sobre a pele caramelizada do pescoço, surdida com a inicial do teu nome “R”… E mais uma vez continuavas… Continuavas a observar-me com esses dois olhos achocolatados, agora fixos nos meus… e por momentos senti-me como uma presa a ser vigiada por um predador, que nem tu! “Tens razão, esta é a última vez, até à próxima que vier…” – eras directo e perspicaz na resposta, deixando que cada lacuna dos teus lábios, se preenchesse num rasgo de rebeldia, assim que me seduzias em mais um dos teus sorrisos fatais. “Até quando tencionas continuar a manter uma vida dupla?” – interrogava-te aquando tu já te aconchegavas novamente a mim, disposto a afagar cada mecha morena do meu cabelo… e num sussurrar inebriante junto do meu ouvido, respondias com serenidade “Até ao dia em que te perder de vista, os meus olhos já não sintam a necessidade de te procurar… até ao momento em que o factor da tua ausência deixe de afectar as minhas horas de sono… até ao instante em que os meus lábios e a minha língua não proclamem a vontade de saciar o desejo na tua boca… até ao ponto em que eu não sinta ganas de gemer quando os nossos corpos se unificam, aqui… nesta cama ou em qualquer outro lugar… quando perder toda a sanidade e te deixar partir, para o conforto dos braços de outro sacana qualquer! Porque só  irei deixar de ter uma vida dupla, quando for mais uma vítima da cobardia e for obrigado a formatar a minha memória, fazendo-me esquecer tudo aquilo que somos e tudo aquilo que representamos: Sim, somos amantes... e daí?"


Meu querido,
não sei mais que dizer a não ser que não consegui dormir na noite passada pois sabia que que há muito o tivemos juntos, acabara entre nós. Tenho um sentimento que nunca imaginei que existisse e, recordando o passado, não vejo outro fim para nossa relação. Somos pessoas muito diferentes, porém, foste meu professor e ensinaste-me a amar e a ser amada, fizeste-me sentir segura quando me abraçavas como se o mundo parasse quando me olhavas nos olhos e sorrias para mim. Quero que saibas que não sinto arrependimento pelo que aconteceu, pois tenho a certeza de que o que partilhamos foi algo real, foste o homem que me fez sentir desejada naquele momento, o mesmo que eu senti por ti foi o mesmo que sentis-te por mim, e sim, fomos felizes. Hoje sinto alguma tristeza por nada ter resultado entre nós e por não ter uma vida realizada a teu lado. Mas trago um peso que carrego comigo, razão pela qual te escrevo esta carta, algo que tenho que partilhar contigo por mais difícil que seja para os dois. Tenho esperanças de que algum dia ainda me possas vir a perdoar depois da minha confissão: O Gonçalo é a prova viva da nossa paixão, é o fruto dos nossos corpos. Por favor, não me odeies, eu sei que para ti deve ser muito duro estares a ler estas palavras, mas não podia continuar a esconder-te este segredo tão forte que não me deixa dormir, pois cada vez que eu olho para o nosso filho vejo o teu rosto doce e meigo que em tempos me hipnotizou e me deixou rendida a teus pés. Durante cinco anos, mantiveste o meu coração cativo e agora é tempo de o deixares partir, é tempo de dizer adeus a tudo o que nos fez chorar, a todos os beijos e noites perfeitas que partilhamos, a todas as promessas e juras de amor que trocamos, é tempo de nos afastarmos e deixar a nossa história no passado. Se no futuro, em algum lugar distante nos reencontrarmos durante o percurso das nossas vidas, olhar-te-ei nos olhos e sorrir-te-ei, não com a alegria que gostava, mas com a ternura que hei-de sentir e assim recordarei o nosso passado juntos, tudo o que aprendemos um com o outro e o quanto crescemos com o nosso amor. Espero que nesse momento te lembres de todas as memórias que sempre partilhámos. 
O nosso filho é a única recordação que eu guardo de ti, filho que eu amo e jamais me perdoaria se ele sofresse com esta situação, tenho consciência que não lhe poderei esconder a verdade pois não seria justo, e o que mais desejo é ver o Gonçalo, um dia, mais tarde ou mais cedo, chamar-te de “pai”. Por enquanto ele ainda é muito novo e decerto que não iria compreender, mas um dia quem sabe… 
Por mais que tente negá-lo, vou sentir a tua falta, e é tão angustiante recordar-me do dia em que parti… no fundo sei que nunca mais voltarei a ser a mesma!
E por mais estapafúrdio e exuberante que pareça, é que ambos sabemos que o nosso destino não é de todo ficarmos juntos, e no entanto eu continuo a amar-te como nunca amei outro homem na minha vida. Foste o meu grande amor e por mais tempo que passe, um grande amor nunca se esquece. 
Peço-te por favor que não me procures mais, pois sei que o que estou a fazer é o mais correcto para ambos. Teremos de seguir em frente, mas desta vez, longe dos braços um do outro.
Assim me despeço.

Com amor, R.